[É talvez por isto que não sei escrever sem espaços entre. ]

O amor é tão sossegado e a paixão tão irrequieta.

Ciente dos dias amenos tão profícuos em conversas que se debatem no tempo, tem-se cada vez menos saber de comunicar com os outros e a dificuldade cresce nos pontos que não se retêm e nos espaços que transcendem o suspirar dos caracteres numa esfera que se quer branca.

Paremos um pouco no café, observemos os transeuntes (abomino esta palavra) a rodear a vontade de um diálogo, o olhar cansado perdido no redemoinho incólume da colher dentro do líquido quente e aromático enquanto com um automatismo que já os fere, respondem às questões habituais de quem não tem nada para perguntar e todo o tempo para preencher.
[É disto que tenho medo.]

Quando da pequena janela se abre, porque jamais soube fechar todas as janelas, debitam as palavras soltas de uma escassear intrincada e pensativa análise em que me colocas a pesar as sílabas e a diminuir os verbos porque eu sei que vais sempre assimilar o que digo de ajuste diferente e tão teu.

Tento há meses explicar primeiro para mim e de encontro a outros mais dificuldade tenho o que é este estar de nada acreditar creditando o todo e creio que não me consigo explicar, ainda assim.
A falta de fé foi o todo que restou da intensa história fora de norma que vivemos, e a fé precisa de existir na pele, na alma, na essência e mesmo que ínfima em cada parte do que somos. É este não sentir que me deixa quase a precisar de mais palavras ainda não inventadas por ficar tão além do mundanismo.

Entre o saber que jamais deixarei que doa e o sentir, considero que prescindir duma ebulição dos sentidos constante requer um verdadeiro cuidado e atenção para dominar parcialmente esse centro que me torna pessoa e efervesce amiúde e mantê-lo assim num lume brando que não sobe e não chega a queimar.

Eu não sinto, e foi o tudo que me deixaste e o que aprendi contigo. Ou o que escolhi aprender no egoísmo de me salvar. E é assim que entendo que a entrega demasiada é prejudicial para todos os intervenientes. E eu que criticava acerrimamente essa coisa do momento, e que agora só vejo como vacina duradoira essa extraordinária forma de estar. E sobra-me a vida para saber o que fazer com este estado que não é letárgico mas sim acalentado e cultivado. Este estado de não me deixar cativar, de novo, mais do que o tempo certo. O tempo que não permite que cresça.

[E todas as relações exigem um acordo tácito.]

Este estado que fica entre o sono e o acordar e daí para lado nenhum porque perdi, para ti, irremediável e conscientemente, qualquer possibilidade de compromisso. E entre o sono e o acordar, entre o sonho e a semi-consciência vou traçando traços de presença quando eu estou além, ainda a pairar num qualquer lugar.

Eu não quero saber de exigências, em contrapartida, eu só gosto de verdade. E de resto pouco me interessa, mais do que cinco minutos, o que daí não parta e regresse. Aliás, verdadeiramente, muito pouco me interessa neste tudo que é o mundo.

Ainda assim procuro não perder a capacidade de me surpreender.

7 comentários:

Anónimo disse...

... a fé... outra vez...
sabes, sinto que foi apenas a fé que ficou e lá voltamos nós outra vez... mas o que é a fé?
Não é crer, acreditar, esperar?!
Pois eu já não creio, não acredito nem espero, mas sinto ainda a mesma fé que sentia antes.
Consegues dar-me um xanax literário que me ofereça outras linhas de pensamento para me ajudar a entender isto?
É estranho eu perguntar-te a ti que és "ateia", mas é de ti que eu quero ouvir.
Apesar de a fé não ser uma questão de religião...
Quanto ao Amor será a liberdade mais ampla do sentir, uma emoção transcendente que nos eleva ao mais alto do ser e nos permite respirar mesmo sem ar.
A paixão será o aprisionamento dessa liberdade, criando cadeias mentais com base no querer e na posse.
O sexo... o sexo é bom...lol, mas será apenas uma manifestação de desejos carnais ou uma expressão de amor, mas uma pequenina, já que a maior será sem duvida o sentir mesmo distante, um abraço descomunal, uma recordação infinita...
Sei que não me perguntaste nada acerca disto (ou acerca de um algo qualquer) mas posso dizer-te que talvez seja essa fé que me restou que me impede de ficar mais além... além de mim.
E lá está, grande imbróglio, tenho fé, mas já não creio.
Tou que nem posso...

Beijos, t*
É que, mesmo não entendendo - sinto.

Fernando K. Montenegro disse...

tantas vezes nos questionamos na compreensão. Na compreensão de nós, na compreensão dos outros, na compreensão que os outro não nos têm. Tantas vezes pensamos que nada resta, que não haverá outra oportunidade de nos restabelecermos, que no sentimento inglório que foi desperdiçado poderia ter havido outra vida. Mas teríamos nós a capacidade de fazê-la girar no sentido certo? Tal como a colher do café que gira. É-lhe indiferente. Mas nós acordamos e caminhos no sentido oposto, este que leva à quebra; à confusão do dito e do não dito. Não se perde para alguém a capacidade de compromisso, esta só se perde para com a vida. O compromisso admissível e imperativo, é para com a vida.

[E todas as relações exigem um acordo tácito.]

Relações que exigem o quer que seja, não são "ligações" de qualquer espécie com possibilidade de desenvolvimento, quer na amizade, familiar, amorosa, entre desconhecidos...Relações vazias, desprovidas de salubridade, em que o parasitismo aborrece e cansa com o tempo, alguém que não soube ou não quis, conhecer o sentido dos laços...

Li este texto 2 vezes. Mas ainda cá volto outra vez...Pelo menos.

pzs disse...

Sempre gostei de quem tem a capacidade e se atreve questionar honestamente como vive o que sente ou escolhe sentir ... se é que isso é possível.
Ainda que tenha consciência de que nos ultimos tempos o que quero é paz e é o que me limita as hipóteses de viver as viciantes sensações que as ditas paixões proporcionam...
Fico entalado entre o que gosto e o que sei que preciso e entra de rompante uma expressão: que seca!!
Acredito que a crise que varre o mundo e enche jornais e noticiários se reflete no que somos emocionalmente. Está um mundo a acabar e estamos perdidos na construção de um novo que não identificamos mas já começou, caótico como tudo o que começa... ainda assim, em desespero e na maior ignorância pretende-se que as relações se baseiem nas permissas que já á tanto sabemos ineficazes neste emaranhado emocional onde sobrevivemos...
Algo de fantástico vem aí que derruba os estériotipos enraizados e desactualizados tornando possivel o Amor. Honesto em tempo real.

Sei que que é já realidade quado leio, raramente, textos como o que aqui partilhas.
Obrigado.
Deixas-me cheio de esperança. Fé.

Bjs

Anónimo disse...

A fé tem mt mais a ver ocm sentir do que com acreditar, a fé transcende-nos a aceitação costumeira do a+b.

Eu sou agnóstica. Muito diferente de seguidora do ateísmo :)
O amor para mim é constante não leva a essas emoções efusivas, existe em si e em nós se completaÓ amor é.

A paixão é só mesmo um descontrolo químico causado por determinado(s) agente (s) e calhando e identificando o causador ou a causa é uma questão de escolha entre.

Porque a paixão precisa de alimento frequente ou morre como a mais bela das rosas e como é uma coisa volátil não prescinde da escolha do que somos para que viva.

O sexo é bom. O sexo pode ser tanta coisa e tão pouca. De necessidade fisiológica satisfeita apenas pela saciedade ausente de sentir a um mundo em que dois deixam mesmo de ser dois.

Se tens fé mas n crês é porque a fé não precisa do teu aval apara existir em ti, faz parte de ti. É como vejo a fé.

Beijos

Anónimo disse...

Olá menino da linha,

Tantas vezes questionamos os outros e não a nós próprios pelas nossas atitudes e gestos. Quantas vezes sabíamos fazer melhor embora saibamos que só saberíamos fazer melhor pq com isso aprendemos.

A capacidade do compromisso perde-se muitas vezes para nós próprios.


"...alguém que não soube ou não quis, conhecer o sentido dos laços..."


*Beijos*


P.S. - E como escreves... não leves a sério nada do que eu digo :)

Anónimo disse...

ZM/

As pessoas são o mundo e muitas é que precisam de reconstrução e principalmente de se medirem com as medidas que usam com os outros. Mas isso é uma aprendizagem.

Bjs.

Arco-da-Velha disse...

"respondem às questões habituais de quem não tem nada para perguntar e todo o tempo para preencher."

Quando se ama às vezes os silêncios são momentos que não precisam realmente de palavras, em que estas só estorvam.

Eu já amei...

Agora vivo o entre o sono, o estado letárgico em que paro no tempo e um breve tempo em que saiu do casulo e acordo.

Às vezes é mais fácil, outras vezes não, volto a cair. Detesto quando retrocedo e retrocedo muito facilmente, qualquer brisa atira comigo ao chão.

Ainda não atingi a serenidade, ainda não percebo o mundo, ainda não sei o que quero... ou melhor eu sei o que quero, só ainda não compreendi se isso existirá, se terei de me contentar com o momento, porque de facto é tudo o que temos.

Bj.


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