Eterno Se

Por favor, desprende-me de ti. Não posso -
grita ele louco e possesso a segurar-se à minha teimosia.

Por favor, deixa-me de novo ser capaz de sonhar, não cair nos dias cheios de ti de tão vazios. Quero ser tempo para o mundo e não tempo para ti.

E ele a insistir, a enviar pequenos sinais quais sinais de fumo confusos em turbulento nevoeiro. Viras-me as costas de todas as vezes que alcanço a tua mão e desistes de mim porque me entendes presa a ti.

E as palavras dele a saírem dispersas, persistentes numa ideia que ele quer de momento, numa ideia que me assola a vontade e o que sou. Não somos. Ficamos.

Não te quero ver mais!
Só ouço mais. Quero-te ver mais! Mais!

Por favor, não vás. Sem ti eu desfaço o que sou e volto a uma penumbra que esquecera. Voltam os travões a chiar nas curvas, volta o sol a cegar-me, volta a música a soar em eco, volto a não me ouvir. Forças-me a ouvir-me. Volta a chuva a incomodar-me, volto a detestar poesia, volto.
Não quero voltar. Fica.

Espremo duas laranjas. Conto 4 pedras de gelo, As mais parecidas. Uma derrete à minha frente, perde-se em círculos, escorre e suicida-se em uníssono. Ilhas de água. Eu não choro.

Sei que perdes as noites até à alvorada dos pássaros. Adivinhas as sombras e desencaminhas-te. Desencaminhas-te até mim, vens nostálgico perturbar-me a noite. Folheias um livro, relês as palavras que te escrevi entre sorrisos e sentimentos, e colocas-te o eterno se que nunca te dará a paz de uma resposta aceitável.

Amanhã não.

Não vás, não vás eu oiço dizer-te. A tua voz perdida no espaço e eu a tentar relembrar a nossa última conversa. A tua última palavra. Adeus escrita. Falada não lembro, de todo.

No fim da tarde corria um silêncio perturbador. Saíste. Voltaste. Deste-me um beijo na testa. Eu não sou uma criança. Neguei-te o beijo. A diferença que tantas vezes te ensombrou. Adeus disse-te eu. Antes de o teres dito. Retribuíste um olhar triste mas firme. A porta fechou-se e ali tudo começara a findar.

Perdi-me dentro de mim, a contar as cores do quadro da parede, um candeeiro antigo que descia petulante e a minha fúria incontida a tremer-me na perna. Atirei com tudo ao ar. Contigo, também. Não sabes, não saberias. Jamais saberás. Ali soube-me igual. Igual nunca.

Despedi-me de ti entre o duche e o espelho. Entre as escadas e o caminho gelado. Chamo-te amor sem querer e verme por querer. Canso-me dos dias de ti. Inteiros. Por inteiro. E o tempo sem mundo merda de tempo sem mundo que me fez sentir.

Sentir. Entre eu e tu.

Pior é isto. Este entre.

9 comentários:

Anónimo disse...

Que fazes ao blogue? Como conseguiste? Está cada vez mais bonito, arrumadinho e, esteticamente, um mimo. A mudança não tem comparação. Gosto, gosto mesmo.

Quanto ao texto, nem comento. Ainda não sei se são só devaneios, iguais aos que eu espalho pelo meu quando estou com a neura, se é mesmo o reflexo de algo sentido e verdadeiro ou simples prazer de escrita. Mas gostei e concordo: o pior é o "entre".

Fernando K. Montenegro disse...

Street Cat AKA Ki

Curvo-me perante o teu texto. Seguramente um dos que mais gozo me deu ler, um dos que mais mexeu comigo nos últimos tempos. Um dos mais poderosos que li. E sim. Fico-me por aqui, a retroceder na página para o ler outra vez. Fabuloso. A tua escrita, ela é, tu sabes - assustadora.

Fernando K. Montenegro disse...

"Adeus disse-te eu. Antes de o teres dito."

Só para dizer que, naturalmente, tu sabes, que volto.

Grande Beijo!

Anónimo disse...

Porque é que o tempo é sempre o primeiro asno a ser chamado?
O pior é sempre o "entre" (o espaço entre a razão e a alma)
Bjs

Lena

Street Cat disse...

TN/
Está engraçado o blog, mas os templates q existem são mt bons. difícil é escolher :)
Obrigada

Interessa a verdade do que escrevo? Tem sempre um pouco de nós, um pouco de alguém, um pouco de mundo.

Street Cat disse...

Lawrence das Arábias/

Leio o teu comentário e fico entre o sorriso e o embaraço, o pior é o entre lol
Obrigada, não me elogies tanto faz-me mal e dps fico com medo de escrever. Assustadora? Que adjectivo...assustador :)

Eu sei. Até já.

Beijos sem tamanho.

Street Cat disse...

Reloginho/

Acho q o primeiro asno a ser chamado é o Amor tantas vezes confundido com o que não é.

Entre a razão e a alma ou entre o bom senso e a calma. Qualquer coisa assim.

.sjB

pzs disse...

...

"Chamo-te amor sem querer e verme por querer."

Merda do medo que me impede de dizer o que penso... não vás tu pensar diferente.

Perde-se o tempo.
Precioso.


: ))

...

Anónimo disse...

ZM/

Boa!

Enigmas? Sou terrivelmente má com adivinhas, é o meu pensamento que é por demais objectivo.

Não percas tempo que te impeça...

Este é um blog livre, sem medos.

Tenta.


Street Cat